Pesquisadores do Projeto Khafre, um grupo formado por pesquisadores da Universidade de Pisa, na Itália, e da Universidade de Strathclyde, na Escócia, alegaram ter descoberto “enorme cidade subterrânea” que se estende por quilômetros abaixo das pirâmides de Gizé, no Egito. A descoberta acendeu um alerta em especialistas da área, que questionaram a metodologia utilizada pelo projeto, a falta de revisão do artigo por outros pesquisadores da área, e até mesmo a autorização de trabalhar na investigação das pirâmides.

O estudo ganhou notoriedade neste final de semana, após uma série de especialistas em Egito Antigo declararem suas preocupações com o novo estudo.

O egiptólogo Zahi Hawass, ex-ministro do Turismo e Antiguidades do Egito e um dos principais nomes na área, se pronunciou em seu perfil oficial no Facebook no último sábado (22), dizendo que a pesquisa foi coordenada “por um grupo de amadores”.

“Toda esta informação está completamente errada e não tem qualquer base científica. Além disso, o Ministério do Turismo e Antiguidades não deu permissão a nenhum indivíduo ou instituições para trabalhar dentro ou fora da segunda pirâmide”, escreveu ele. “Além disso, a alegação de que um radar foi usado dentro da pirâmide é falsa.”

Entenda o caso

No dia 16 de março, durante um evento na cidade de Castel San Pietro Terme, na Itália, os cientistas Corrado Malanga, Armando Mei e Filippo Biondi anunciaram a descoberta de oito estruturas cilíndricas verticais que se estendem por mais de 600 metros abaixo da pirâmide, além de outras formações desconhecidas a uma profundidade de 1,22 km.

A revelação teve como base um estudo independente, revisado por pares e publicado no periódico científico Remote Sensing em outubro de 2022. Esse estudo identificou câmaras e rampas ocultas dentro da pirâmide de Quéfren, além de uma anomalia térmica próxima à sua base.

Imagens obtidas em estudo que indicou a presença de possíveis estruturas artificiais no interior das pirâmides — Foto: Khafre Project
Imagens obtidas em estudo que indicou a presença de possíveis estruturas artificiais no interior das pirâmides — Foto: Khafre Project

Para a análise, os pesquisadores combinaram duas tecnologias. A primeira, chamada radar de penetração no solo (GPR), é amplamente utilizada no mapeamento do fundo oceânico, emitindo pulsos eletromagnéticos para gerar imagens. Já a segunda tecnologia utiliza impulsos de satélites para detectar pequenas vibrações causadas por movimentos sísmicos naturais. Com a combinação desses métodos, os cientistas conseguiram criar imagens do que possivelmente existe abaixo da superfície terrestre.

Segundo a equipe, abaixo da pirâmide existem “escadas em espiral”, além de uma plataforma de calcário que abriga duas câmaras e canais semelhantes a tubulações de um sistema de água, ocultando a presença de uma grande estrutura subterrânea. Os cientistas também afirmaram que a pirâmide de Quéfren pode guardar segredos ainda não revelados, incluindo o lendário “Salão dos Registros” – uma biblioteca que, segundas teorias, estaria escondida sob a Grande Pirâmide ou a Esfinge, e conteria vastos conhecimentos perdidos sobre a civilização egípcia.

Representação gráfica de como seria a estrutura da pirâmide — Foto: Khafre Project
Representação gráfica de como seria a estrutura da pirâmide — Foto: Khafre Project

Resultados contestados

No entanto, à medida que as declarações da equipe ganharam repercussão na mídia, especialistas da área começaram a questionar as descobertas. No meio científico, achados dessa magnitude costumam ser apresentados com evidências concretas, submetidas à revisão por pares e publicadas em publicações científicas reconhecidas na área.

Controvérsias

O primeiro ponto que gerou dúvida entre os especialistas foi a alegação de que o GPR poderia alcançar profundidades tão grandes quanto os pesquisadores afirmavam. Em entrevista ao portal britânico DailyMail, Lawrence Conyers, especialista em radar de penetração no solo aplicado à arqueologia, explicou que essa tecnologia não é capaz de penetrar tão profundamente, tornando a hipótese “um grande exagero”.

Isso, no entanto, não significa que não existam estruturas abaixo da superfície, mas sim que sua dimensão pode ser bem menor do que a divulgada, limitando-se possivelmente a poços e pequenas câmaras. Conyers sugere que a única maneira de validar as descobertas seria por meio de escavações direcionadas. “Desde que os autores não estejam inventando coisas e seus métodos básicos estejam corretos, todos os interessados ​​no local deveriam dar uma olhada em suas interpretações”, disse ele.

Já o egiptólogo Hussein Abdel-Basir, ex-diretor geral da área das Pirâmides de Gizé, afirmou que o governo egípcio não participou nem reconhece os resultados da pesquisa. “O que aconteceu aqui foi meramente uma conferência de imprensa e um comunicado de imprensa, sem um artigo científico publicado em qualquer periódico respeitável e sem um anúncio oficial do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito ou do Conselho Supremo de Antiguidades”, explicou o especialista em entrevista ao jornal Egypt Independent.

Além disso, surgiram questionamentos a um dos autores do artigo, Corrado Malanga.Conhecido por sua participação em programas sobre alienígenas, o ufólogo construiu uma carreira de mais de uma década estudando avistamentos de objetos voadores não identificados (OVNIs). “Quando essa abordagem é introduzida na pesquisa arqueológica, ela se transforma de pesquisa científica na promoção de teorias da conspiração e populismo que não servem à verdade”, completou Abdel-Basir.

(Por Redação Galileu)