Um grupo de biólogos da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, realizou uma análise das características de 216 espécies de aves extintas desde 1500. O objetivo era identificar padrões e características comuns entre elas.

O levantamento, publicado em um artigo no periódico Avian Research, permitiu traçar um perfil das espécies com maior probabilidade de sumirem do mapa mais cedo. A maioria delas era endêmica de ilhas, incapaz de voar, apresentava corpos maiores, asas com formato mais angulado e ocupava nichos ecológicos altamente específicos. Essa foi a primeira vez que características das aves foram correlacionadas com o momento das suas extinções.

Os cientistas recorreram ao banco de dados público BirdBase, que reúne informações detalhadas sobre 11.600 espécies de pássaros em todo o mundo, além de estudos prévios sobre características associadas ao risco de extinção. Assim, a análise incluiu aspectos biogeográficos, ecológicos e históricos não apenas de aves oficialmente extintas, mas também de espécies consideradas desaparecidas — aquelas que não são vistas ou registradas por humanos na natureza há mais de uma década.

“É importante ressaltar que examinamos correlatos biológicos de extinções de pássaros pela lente de quando os pássaros foram extintos, fornecendo um novo elemento de tempo de extinção que ajuda a informar melhor por que pássaros com certas características desapareceram quando desapareceram”, escreveu Kyle Kittelberger, autor principal do artigo, em uma publicação no X (antigo Twitter).

Principais características

A característica mais determinante para a extinção de aves é a insularidade, ou seja, a existência restrita a determinadas ilhas. Essas espécies geralmente apresentam alta especialização, adaptando-se a nichos ecológicos muito específicos. Essa dependência as torna mais vulneráveis à ação humana e à introdução de espécies externas no ecossistema, como mosquitos transmissores de malária e varíola aviária, além de gado, que destrói habitats naturais.

Mapa mostra a quantidade de espécies extintas e perdidas por região — Foto: Kyle Kittelberger/University of Utah
Mapa mostra a quantidade de espécies extintas e perdidas por região — Foto: Kyle Kittelberger/University of Utah

Um exemplo marcante é o ‘akikiki (Oreomystis bairdi), um pequeno pássaro nativo da ilha de Kaua’i, no Havaí. Limitado a uma área de apenas 36 quilômetros quadrados, sua população foi severamente afetada pelas doenças transmitidas por mosquitos. Em 2022, estimava-se que cerca de 70 indivíduos ainda viviam na natureza — hoje, resta apenas um único exemplar. O arquipélago do Havaí foi o que mais sofreu com a perda biodiversidade aviária, com 34 extinções após 1500.

O aspecto que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a conexão entre o formato das asas e o risco de extinção. A análise revelou que aves com asas mais pontiagudas apresentavam maior probabilidade de desaparecer. O resultado foi surpreendente, já que asas pontudas geralmente indicam habilidades superiores de voo, característica que teoricamente ajuda as aves a lidarem com pressões ambientais. Porém, espécies com asas mais arredondadas e proporções menores entre a “mão” e a asa demonstraram maior resistência às adversidades.

“Provavelmente está ligado ao fato de que muitos desses pássaros que foram extintos estavam em ilhas. Para essas espécies ou seus ancestrais terem chegado a essas ilhas, para começar, eles precisariam da habilidade de voar por grandes distâncias abertas. Então, muitos desses pássaros em ilhas têm, não necessariamente mais longas, mas asas mais pontudas”, disse Kittelberger.

Além disso, o estudo concluiu que 45% das espécies extintas/desaparecidas se alimentavam de insetos e outros invertebrados, enquanto 20% havia perdido parcial ou totalmente a capacidade de voar. Espécies de grande porte eram maioria entre as extintas, mostrando como esses animais eram mais propensos a serem caçados por humanos ou outros predadores.

Esforço pela conservação

De acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, 1.314 espécies de aves estão em risco de extinção e 126 estão desaparecidas. A pesquisa sobre os traços biológicos de aves extintas oferece aos cientistas uma visão mais aprofundada sobre os fatores que aumentam sua vulnerabilidade e contribuem para o desaparecimento. Essas informações são fundamentais para orientar estratégias de conservação e ajudar a prevenir a extinção de outras espécies.

“Estou muito interessado em extinções e em entender as espécies que perdemos, além de tentar entender como podemos usar o passado para informar melhor o presente e o futuro”, disse Kittelberger, em comunicado. O pesquisador estuda sobre como os corpos e as asas de certas espécies de pássaros canoros migratórios mudaram em resposta às mudanças climáticas.

(Por Redação Galileu)