Após 25 anos de dedicação a um curioso fóssil de 444 milhões de anos, especialistas da Universidade de Leicester, no Reino Unido, por fim tornaram oficial a descoberta da espécie Keurbos susanae. O artrópode marinho primitivo foi encontrado em Soom Shale, a 400 km da Cidade do Cabo, na África do Sul.

“Sue”, como foi apelidada a descoberta, surpreendeu a equipe de investigação por ser o resultado do que parece um processo de fossilização de “dentro para fora”, em que o interior do animal foi muito melhor preservado do que o seu exterior. Os resultados encontrados foram descritos em um artigo publicado na revista Paleonthology na quarta-feira (26).

“Notavelmente, suas entranhas são uma cápsula do tempo mineralizada: músculos, tendões, tendões e até mesmo vísceras, todos preservados em detalhes inimagináveis”, explica Sarah Gabbott, líder do projeto, em comunicado. “No entanto, sua carapaça durável, pernas e cabeça estão faltando – perdidas para a decomposição há centenas de milhões de anos”.

Preservação única

Ao que tudo indica, a antiga bacia marinha onde “Sue” foi encontrada estava protegida das piores condições de congelamento de uma época de glaciação devastadora que assolou o planeta no passado. Enquanto boa parte do mundo viva a da extinção Ordoviciano-Siluriana, o artrópode e uma fascinante comunidade de animais encontrou refúgio no fundo do mar.

Sarah Gabbott, da Universidade de Leicester, segue conduzindo visitas no local onde o fóssil foi descoberto, na esperança de encontrar novos espécimes para analisar, que ajudem a desvendar os mistérios de "Sue" — Foto: Universidade de Leicester
Sarah Gabbott, da Universidade de Leicester, segue conduzindo visitas no local onde o fóssil foi descoberto, na esperança de encontrar novos espécimes para analisar, que ajudem a desvendar os mistérios de “Sue” — Foto: Universidade de Leicester

Porém, nem tudo era perfeito. As condições nos sedimentos locais eram extremamente tóxicas, não havia oxigênio disponível, apenas sulfeto de hidrogênio mortal dissolvido na água. Além de levar a sua morte, o ecossistema hostil provavelmente é o responsável pela estranha “alquimia química” que levou a formação do fóssil em sua incomum preservação de dentro para fora.

Tal característica única é uma mina de ouro científica para investigar os sistemas e a anatomia dos bichos antigos, mas, ao mesmo tempo, também representa um grande desafio. Isso porque a comparação de só tecidos moles torna difícil a associação com outros fósseis conhecidos. Nesse sentido, “Sue” segue sendo uma peça misteriosa dentro do “quebra-cabeças” da árvore evolutiva da vida.

Homenagem à mãe

O nome científico da espécie “susanae” e o apelido “Sue” são uma homenagem de Gabbott à sua mãe. “Ela sempre me disse que eu deveria seguir uma carreira que me fizesse feliz – seja lá o que fosse. Para mim, isso é cavar pedras, encontrar fósseis e então tentar descobrir como eles viveram, o que eles nos dizem sobre a vida antiga e a evolução na Terra”, conta a pesquisadora.

A escolha por publicar a descoberta, mesmo sem completar a taxonomia da espécie, veio justamente de sua mãe. Ela falou para Gabbott que gostaria de ver o seu grande achado compartilhado antes de morrer.

No futuro, a equipe planeja continuar a investigação do material fóssil para encontrar novas evidências que os ajudem a localizar o animal na árvore evolutiva. Além disso, eles expressaram o interesse em tentar localizar novas espécies no local onde “Sue” foi escavada

(Por Arthur Almeida)