Cuiabá - MT | Segunda-Feira, 27 de Setembro de 2021

A um passo da felicidade

A um passo da felicidade

Acreditar na eternidade dá sentido à existência? E se houver a eternidade, o tempo é ficção ou realidade? A existência a partir da existência anterior é possível? Em havendo marco inicial do tempo, o que sobra antes dele?

Para Platão, “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. Então, o tempo é simples imitação da eternidade. A eternidade é o modelo, é superior ao tempo (Roberto Machado). Platão parece acreditar na eternidade como essência da vida.

Por outro norte, Nietzsche proclama: “Através dos vidros dos caixões, olhou-me vencida a vida” (Assim Falou Zaratustra).

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A vontade é castigada pelo tempo. Não há como voltar e fazer da vontade, mudança nos fatos. A vida é vencida a cada instante posterior, se o que se quer é alternativa para os acontecimentos. É preciso muita coragem para crer no eterno retorno, um tempo circular a indicar que o feito o foi porque quis, e aceitar.

Eterno é o que não era nem será, mas apenas é (Plotino). A eternidade não se mistura com o tempo, que ali não existe.

Talvez se se pudesse interagir a razão instrumental (estrutura de pensamento) com a necessidade se tenderia a uma maior conformação do sujeito com os fatos passados. Os acontecimentos no tempo são sempre permeados pela necessidade, sendo esta a sua essência. Mas isso, contudo, nada tem de ver com a eternidade, a não ser no platonismo e cristianismo com a questão afeta à vida eterna a ser alcançada pelos aprovados, pelos merecedores.

Considerando a possível existência da eternidade (“crença” não comprovável) e o fato desta ignorar o tempo, qual o sentido da vida? Por que para cá viemos? Expiar seria uma das respostas. Porém, se expia algo, esse algo trazido junto de algum lugar. Então, de uma vida anterior, o que consagra o pensamento de Platão da “doutrina da anamnese”.

A doutrina platônica da “anamnese” se expressava assim: “Como a alma é imortal e nasceu muitas vezes e viu todas as coisas, tanto aqui como no Hades, nada há que ela não tenha aprendido: de modo que não espanta o fato de que possa recordar, seja em relação à virtude, seja em relação a outras coisas, o que antes sabia” (Abbagnano, Filosofia).

A vida parece ter sentido se alinhada à ideia de eternidade, apesar dos existencialistas. Afirmar uma só existência estará em rota de colisão com a felicidade, sempre, apesar das tentativas de Sartre e Nietzsche em descortinar caminhos que porventura venham a superar tal dilema. A não ser se a felicidade fosse divisível no tempo (o que por si só descarta a eternidade) em fragmentos de espaços/tempo possível, os quais deveriam ser eternizados enquanto se tem consciência; vale lembrar, enquanto a vida não olhar vencida pelos vidros dos caixões.

A felicidade é um fim e não um meio de resignação para a continuidade da caminha da vida. Seria muito pouco uma vida fragmentada por intervalos líricos e de rudeza como realidade imutável. A lembrança do efêmero soaria como um balde de água fria a desacelerar a poesia. A ilusão da busca por uma felicidade constante, possível de ser alcançada até para além desta existência, traz maior encanto para os desencantos da vida. Uma utopia imaginária de alcance reconhecível para se fazer caminhar esperançadamente.

Portanto, o tempo existe como convenção, ignorado pela eternidade que a todos alcançará em plenitude e júbilo. A origem do homem e da mulher é anterior ao tempo, que, em seu decurso ficcional, ficará como fragmento de vida, de várias vidas, em que se buscou incessantemente a perene felicidade.

Uma ideia para o mundo das ideias vale mais que os apontamentos de um pensamento, apesar de sério e bem fundamentado, marcado pela profusão de uma realidade muitas vezes vivida, e nunca querida. Isso vale mais que livro de autoajuda.

É por aí…

 

*GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto)   é formado em Filosofia e Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); é membro da Academia Mato-Grossense de Magistrados (AMA), da Academia de Direito Constitucional (MT), poeta, professor universitário e juiz de Direito na Comarca de CuiabáE é autor da página Bedelho Filosófico (FaceInsta e YouTube).

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